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O perfil do associado do Vasco, que não pode ser excluído financeiramente, apesar de críticas por arrecadação

Recentemente em um podcast do Rodrigo Capelo, jornalista especializado em marketing e finanças esportivas, recebeu Cesar Grafietti, economista do esporte, e Raphael Zarko, repórter do site, para falarem sobre as finanças dos clubes do Rio. Quando analisaram o Vasco, Grafietti elogiou a torcida pela mobilização em massa para associação, mas disse que a arrecadação foi baixa. Entretanto, o Vasco não pode sacrificar e afastar o seu torcedor de ajudar o clube e sentir que o clube pertence a si, como outros clubes fazem.


É sim um fato que, apesar do Vasco liderar o número de sócios no país, não é o clube com a maior arrecadação. Em 2019, o clube arrecadou R$ 36 milhões com este tipo de receita, enquanto Grêmio e Internacional, por exemplo, arrecadaram R$ 75 milhões e R$ 90 milhões, respectivamente. Ambos os clubes possuem muito menos sócios torcedores que o Vasco: em 2019, Grêmio tinha 90 mil sócios e Internacional tinha 125 mil sócios. Provavelmente estes números serão menores em 2020, como os do Vasco também já estão. Desde o início do processo de renovação, o clube passou de 175 mil sócios para 125 mil, com mais 87 mil novas associações e renovações de 1º de maio até o dia em que esta matéria está sendo escrita, dia 14 de junho.

Comparemos com Grêmio e Flamengo, outro clube que arrecadou mais que o Vasco com esta receita, apesar de menor número de associados. O plano mais barato no programa do Grêmio custa R$ 35 reais e o mais caro, passa dos R$ 155 reais, mas não é informado de forma direta no site do clube. O valor varia de acordo com o tipo de ingresso que esta modalidade dá direito ao sócio. Nestas modalidades mais caras, o torcedor gremista não paga pelo seu ingresso. Já no clube carioca, o valor mais baixo é de R$ 54,90 e o mais caro, R$ 294,90. No caso do Flamengo, quanto maior o valor pago pelo sócio, mais prioridade ele tem na hora de comprar ingressos. Desta forma, é de se imaginar que os torcedores tenham maior procura por um plano de valor maior, para não perder os jogos do clube, que costumam lotar pela boa fase do time. Além disso, assim como o Vasco, o clube possui uma categoria de associação específica para direitos políticos, o sócio-proprietário. Como clube de elite que é, o rubro-negro carioca cobra R$ 15.000 reais de jóia para o sócio que deseja adquirir tal título e a mensalidade custa R$ 163 reais, dando direito a este associado de ter os mesmo benefícios do sócio-torcedor mais barato “gratuitamente”.

Agora, vejamos o caso do Vasco. Como sabemos, boa parte das associações do clube entraram com um valor descontado em 50%, porém, na renovação e nova associação de 2020, o valor será cheio pelo plano, tendo apenas a possibilidade de ter 2 ou 3 meses gratuitos, caso o torcedor assim desejasse. Desta forma, com um menor número de associados, o clube arrecadará o mesmo que em 2019. O plano mais barato do clube custa R$ 7,98, um plano que tem um viés social, sorteando ingressos para os sócios desta categoria e também destinando parte da renda para ações sociais. No mês passado, o clube doou R$ 110 mil reais para o INCA através desta renda. O clube possui ainda um plano voltado para torcedores de fora do Rio de Janeiro, que passará a ter renda destinada à base em 2020. Nos planos voltados a jogos, o clube tem planos que vão de R$ 24,98, com 70% de desconto no ingresso, a R$ 109,98, que dá 100% de desconto no ingresso e 4 convidados com 50% de desconto. Estes valores, portanto, são muito mais baratos que os planos dos clubes analisados. No caso do sócio com direito a voto, o clube tem duas categorias, Geral e Proprietário. O Geral tem taxa de admissão de R$ 750 reais e mensalidades de R$ 70 reais, que dá 50% de desconto no ingresso, mas é possível adquirir o plano de sócio-torcedor que dá maiores descontos pagando um combo. Já o Proprietário, a jóia do clube é de R$ 2.500 reais, com mensalidades de R$ 80 reais e mesmas vantagens em relação a jogos que o Geral.

A diminuição do número de associados do Vasco tem vários fatores em comum com a diminuição de outros clubes: associados que não pagam com cartão de crédito tem chances menores de renovar, até por esquecimento; momento de crise financeira do país, que já existia antes e foi agravada pela pandemia do Covid-19; falta de jogos, portanto o associado não vê vantagem em permanecer pagando para não ter o benefício que tem direito. Contudo, o Vasco tem outros fatores a serem analisados.

Primeiramente, a torcida do Vasco é muito maior fora do seu estado do que dentro dele. Estados como Manaus, Espírito Santo e Distrito Federal têm grande número de vascaínos e estes precisam de uma presença melhor do clube localmente. Uma possibilidade era o programa das Capitanias Vascaínas pelo Brasil, lançado em 2018, mas que não tivemos mais notícias sobre ou divulgação pelo clube a respeito. Estes locais de encontro de vascaínos poderiam ser também locais de atendimento do Sócio Gigante para aqueles sócios que precisam de ajuda para renovar, para tirar dúvidas etc.. Isto aparece no raio-x no site do Sócio Gigante: 59.19% dos associados são do Rio de Janeiro. Ou seja, a maior parte da torcida do clube não está sendo incentivada o suficiente para ter vontade de se associar, ou não tem meios para o fazer, ou até mesmo não sabe que isto existe.

Outro fator a ser analisado é o perfil da torcida do Vasco. Em um estudo de 2012, a empresa Ipsos Marplan divulgou uma pesquisa sobre os perfis sócio-econômicos das torcidas dos clubes e podemos ter uma ideia sobre o perfil de consumo do vascaíno. Nesta pesquisa, mostra que a maior parte da torcida do clube hoje em dia é adulta, já tendo poder de consumo, e se concentra, principalmente, nas C, D e E. 6% da totalidade de torcedores na classe C e 5% nas classes D e E. Classes A e B tem 4% de torcida vascaína. Em comparação, o Flamengo tem 13% em ambas as classes A e B, de maior poder aquisitivo. Isto mostra que a maior parte da torcida do clube não tem condições financeiras de pagar planos de sócios nos preços pagos pela torcida rival. No raio-x dos associados, podemos ver que os planos com maior adesão por parte da torcida são os três mais baratos: Caldeirão (R$ 24,98) com 39,69%, Norte a Sul (R$ 14,98) com 18,51% e Camisas Negras (R$ 7,98) com 16,39%. Nos últimos anos temos visto que boa parte da torcida mais pobre dos clubes vêm sendo expulsa dos estádios por não ter dinheiro suficiente sobrando para pagar planos de sócio-torcedor e ainda pagar ingressos caríssimos e o Vasco atende a maior parte da sua torcida ao ir contra esta maré. Além disso, no momento atual de gravíssima crise financeira, em que o número de desempregados é cada vez maior, é impossível e muito insensível, criticar planos de valores mais baixos, já que muitos com certeza desejavam renovar, mas não o podem fazer.

É possível que a política de preços do clube mude com a reforma de São Januário, que visa aumentar a receita do clube com sócio-torcedor, ingressos e camarotes, através de preços e serviços oferecidos de diversos tipos e bolsos, mas é preciso que os ingressos mais baratos sejam a maioria do estádio, senão o clube corre o risco de ter baixa presença de público.

Por último, é preciso entender também a baixa adesão feminina ao programa Sócio Gigante. Nesta mesma pesquisa de perfil do torcedor, havia um empate técnico entre torcedores do sexo masculino e feminino: 5% do total dos entrevistados em ambos os casos. Entretanto, ao ver os dados publicados pelo clube, vemos uma disparidade enorme: 85,67% dos sócios são do sexo masculino e apenas 14,33%, do sexo feminino. Há aí um claro problema a ser resolvido pelo clube e é preciso entender os anseios e problemas que as torcedoras veem que não as motivam a se associar.

Portanto, há sim formas de aumentar a arrecadação do clube com seus sócios, mas o problema não está no baixo valor cobrado. Caso não fossem esses os preços, provavelmente a torcida não teria condições de ajudar o clube e sentir o pertencimento que nos dá ao ser um sócio. O clube precisa sim entender o porquê dos seus torcedores mais distantes e o público feminino serem menos representativos em seu quadro associativo.

Por: Rick de Castro

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